terça-feira, 24 de novembro de 2009

disco: ECO, Jorge Drexler

Minha teoria é a seguinte: a qualidade dos discos de intérpretes que também são compositores vai decaindo com o tempo. Isso porque, nos primeiros discos, há muito material do tempo em que o artista ainda não gravava. Chega um momento, lá pelo terceiro ou quarto disco, em que não há mais bom material antigo, e o disco tem que ser feito com canções produzidas recentemente. Como recentemente o artista tem dedicado mais tempo a shows e compromissos de divulgação de sua obra, o ofício de compor é deixado um pouco de lado: o artista agora já tem um público, talvez até já faça sucesso, mas já não tem mais músicas tão boas quanto as que lhe garantiram isso.

Bom, mas toda regra tem exceção. E eu encontrei uma exceção escandalosa no disco Eco, o sétimo da carreira de Jorge Drexler. Isso mesmo, o cantor e compositor uruguaio precisou de sete tentativas para fazer o disco perfeito, porque Eco é um daqueles raros discos em que não há nenhuma faixa ruim, todas as faixas são boas e ainda existem algumas obras-primas.

Como brasileiro, é difícil gostar das letras de músicas em outras línguas, afinal, entre nossos letristas, nós temos grandes poetas, capazes de fazer das letras de música verdadeiras obras literárias. E isso não acontece comumente mundo afora. Mas acontece com o Jorge Drexler, que ficou mundialmente conhecido por ter ganho o Oscar de melhor canção original com "Al Otro Lado del Río", que fez parte da trilha sonora do filme Diários de Motocicleta, sobre a vida de Che Guevara. A canção também está em Eco:

Yo muy serio voy remando muy adentro sonrío
Creo que he visto una luz al otro lado del río
Sobre todo creo que no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío
Oigo una voz que me llama casi un suspiro
Rema, rema, rema
Rema, rema, rema
(da música "Al otro lado del río")


Mais uns trechinhos de poemas-canções de Drexler:

Tu beso se hizo calor,
Luego el calor, movimiento,
Luego gota de sudor
Que se hizo vapor, luego viento
Que en un rincón de la rioja
Movió el aspa de un molino
Mientras se pisaba el vino
Que bebió tu boca roja.
(da música "Todo se transforma")


Vamos pedaleando
contra el tiempo,
soltando amarras.
Brindo por las veces
que perdimos
las mismas batallas.
Tengo tu sonrisa
en un rincón
de mi salvapantallas.
(da música "Salvapantallas")


Não bastassem as letras, as melodias e os arranjos também são maravilhosos, como você podem escutar nos tocadores aí em cima. O disco Eco pode ser ouvido, na íntegra, no site de Jorge Drexler, onde se podem encontrar também as letras e os demais discos.

Boa audição (e boa leitura, por que não?)!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

livro: POEMAS ESCOLHIDOS, Emily Dickinson

Fernando Pessoa não vale. É Deus. O melhor poeta em língua portuguesa que conheço é Cecília Meireles. Então não foi surpresa quando descobri o melhor da poesia em língua inglesa nas palavras de uma mulher: Emily Dickinson.

The Grass so little has to do —
A Sphere of simple Green —
With only Butterflies to brood
And Bees to entertain —

Neste pequeno livro de bolso que indico, uma edição bilíngue que traz uma pequena coletânea dos poemas de Emily Dickinson, Ivo Bender traduz essa estrofe de poema assim:

Bem pouco a fazer tem o pasto:
Reino de irrestrito verde,
Só tem borboletas para criar,
E abelhas para entreter —

Eu sou mais da turma do pé-da-letra e da métrica, e traduziria assim:

A Grama tem pouco a fazer —
Esfera Verde e simples —
Borboletas para cuidar
Abelhas a entreter —

Sempre considerei que o teste da poesia é a música. Assim como em sua origem — quando era cantada — poesia boa, verdadeira, tem que ser potencialmente musicável, mesmo que nunca seja realmente. Leio poesia com o ouvido interno atento à música e, de vez em quando, eu a escuto com clareza, feito quando li esse poema da página 79:

All the letters I can write
Are not fair as this —
Syllables of Velvet —
Sentences of Plush,
Depths of Ruby, undrained,
Hid, Lip, for Thee —
Play it were a Humming Bird —
And just sipped — me —


Na música, mudei levemente o assunto de "carta" pra "canção", e ficou assim:



Então é isso. Se dê ao prazer de entrar no universo delicado e estonteante da poesia de Emily Dickinson. Boa leitura!

sábado, 10 de outubro de 2009

disco: ZII E ZIE, Caetano Veloso

não é um disco fácil.

é um disco de caetano, ou melhor é o novo disco do caetano.
não é um disco solar a começar por sua capa...presume-se que seja o rio de janeiro, mas o rio de caetano é de sombra, penumbra e pouca luminosidade!


o rio está úmido e sombrio... no rio choveu muito em 2008, ano da feitura do disco.
presume-se que sejam rocks e sambas, mas são transambas e transrocks.
até o título é sui generis...zii e zie...expressões italianas lembram mais sampa que o rio, mas o cd está impregnado de rio de janeiro por todos os lados.



depois do invulgar, incomum, inusual e trangressoer Cê, a que tive o privilégio de assistir em Brasília (lançamento da turnê brasileira) e na sua passagem por Teresina, e claro assistir ao visível desapontamento de uma parte da platéia que quer sempre e por todo o sempre ouvir Leãozinho e Você é Linda, Caetano atacava de Rocks, Odeio Você, Amor Mais que Discreto, Não Me Arrependo de Você (dessas músicas de ódio que você só faz lembrando de alguém que você foi capaz de muito amar)...

mas isso é o Cê e Zii e Zie fez o Cê tornar-se passado.

agora no cd novo, com uma feitura de obra em progresso, em shows no rio ano passado, as novas músicas foram sendo apresentadas generosamente ao público, no melhor estilo men at work...


a banda está ainda mais afiada, a sonoridade não é a princípio acolhedora, as camadas de sons vão se decantando aos poucos, o canto de caetano é sempre ou quase sempre limpo e sempre bonito, e o encanto escondido e oculto como eclipse, surge e se estabelece em definitivo.

vamos às músicas...

bem...são treze canções, da politizada Base de Guantánamo, passando pela boba Tarado Ni Você (esta talvez a faixa mais fraca da obra)...

há a linda Sem Cais,

a pungente Perdeu (com a bandaCê inspiradíssima),

as alegres e coloridas
A Cor Amarela (música de verão de um CD de outono), e

Menina da Ria (lembram de menino do rio, mas agora trata-se da descrição de uma passagem lusitana do mano Caetano),

há o rio em Lapa (“Pobre e requintado e rico e requintado/ E refinado e ainda há conflito/ Pelourinho vezes Rio é Lapa/ Lapa/ Veio a salvação/ Lapa/ Falta o mundo ver/ Assim”) e

ainda mais versos interessantes de Diferentemente:
“Eu nunca imaginei que nesse mundo/ Alguma vez alguém soubesse quem é/ Mas se você me vê seus olhos são mais do que meus/ Pois amo/ E você ama/ E aí o indizível se divisa/ E a luz de tantos céus inunda a mente”,

há batidas inteligentes e desconcertantes (o arranjo de incompatibilidade de gênios) e

por fim o convite do Ota para que vocês conheçam o novo de um artista consagrado, que tem a sacra e profana ousadia de experimentar, de sair do cânone, de buscar novas luzes, novos caminhos, e ele como diz a mana Bethânia nem sempre acerta, nem sempre é bonito, mas é sempre bom ver alguém com coragem em tempos tão...


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

livro: ABISMO POENTE, Whisner Fraga


Conheci o Whisner Fraga passando cheque sem fundo pra ele... Pois é...

Havia duas coisas, em 1998, com as quais estava aprendendo a lidar: conta em banco e me enturmar no cenário literário. Nesse ano, o Whisner organizou uma antologia de contos para a Blocos Editora, naquele sistema de o autor colaborar financeiramente com o feito. Bom, eu colaborei com um conto e também com um cheque sem fundo. Mas foi apenas descuido de principiante. Paguei a conta e ganhei um amigo.

Mais do que um amigo, tornei-me apreciadora das obras desse autor. De Seres e Sombras, passando por inéditos que – agradecidamente - recebo por e-mail para matar a vontade de lê-lo, pelo belíssimo O Livro dos Verbos, chegando ao atual Abismo Poente. As obras de Whisner Fraga mostram um autor plural.

Primeiro que meu lado poeta não se fez de rogado e adorou o título. Depois, Abismo Poente - uma coletânea de contos que, na verdade, pode ser lida como um romance – se mostrou uma obra muito bem construída, capaz de levar o leitor a uma viagem intrigante e interessante pela cultura dos imigrantes libaneses, numa linguagem tão intimista que permite que nos embrenhemos na trama como se a assistíssemos pela janela.

Particularmente, muito me encanta a forma como Whisner tece metáforas. Há nesse fazer um enriquecimento poético em Abismo Poente, numa prosa que desvela desafetos, descuidos, maledicências, estrangeirismo até mesmo quando se chama a terra onde se pisa de lar. A pessoa quem se ama de lar.

Chegar ao âmago do ser humano, ainda antes de lhe alcançar a bondade, o amor e a compaixão, é tarefa para poucos. Whisner Fraga é um desses poucos. E Abismo Poente é uma das provas.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

disco: MARIA GADÚ, Maria Gadú


Eu me deparei com esse disco e, desde então, não paro de descobrir qualidades nele.

Maria Gadú já é um nome conhecido, com música em trilha de novela e tudo o mais. Só que eu não ando muito no dial dos hits, então demorei mais para saber dela. E foi assim, uma coincidência providencial.


Num momento em que muitas moças acreditam piamente que são ótimas intérpretes e compositoras exemplares, Maria Gadú chega sendo e não apenas acreditando ser. A voz peculiar, capaz de nos acompanhar pela graça e pelo delírio de sua música, e o violão afinado com a poesia das letras, carregam uma irreverência necessária para conquistar ouvintes que querem mais, muito mais que sucessos fabricados.

No auge dos seus 22 anos de idade, Maria Gadú promete e, ainda bem, tem tudo para cumprir essa promessa.

sábado, 26 de setembro de 2009

filme: LA BELLE VERTE, Coline Serreau

Sabe quem eu gostaria de conhecer? O presidente da república, meus artistas favoritos? Não. Com certeza, meu bisavô, de quem todo mundo fala entusiasticamente na família, mas Pai Quinco já faleceu. Eu gostaria de conhecer uma dessas pessoas que fazem a tradução do título dos filmes. Uma dessas pessoas que me obriga a colocar o título original na chamada desta postagem porque não tenho coragem de usar o título brasileiro. Afinal, o que você pensaria de um filme com o título "Turista Espacial"? Possivelmente, algum filme de ficção científica barata. Não, é melhor que você — que talvez nem saiba francês — não tenha ideia do que o título quer dizer. A ignorância é melhor do que uma compreensão errada.

A Bela Verde é um título misterioso, porque não se fala nada sobre isso no filme. Se fosse A Bela Azul, suporíamos que se trata da Terra — e talvez se trate, porque, afinal, a Terra não deve ser azul pra todo mundo. A protagonista é Mila, uma habitante de outro planeta que deseja conhecer o planeta de origem de seus ancestrais: a Terra. Não, nada de máquinas e aparatos tecnológicos. A viagem é feita numa bolha impulsionada pelos pensamentos dos habitantes desse evoluído planeta — embora se pareça mais com um bando de hippies.

Aliás, há que se deixar de lado a razão pra aproveitar esse filme. O choque cultural que Mila enfrenta na Terra — automóveis, consumo de carne, ar poluído, raiva etc. — gera uma série de situações hilárias, por vezes graciosas, e quase sempre profundamente questionadoras da nossa maneira de enxergar o mundo e nossa vida.

Por exemplo, a deliciosa cena em que Mila pergunta a uma terráquea sobre o conteúdo de sua bolsa. Quer saber por que a mulher usa batom. A mulher diz que para ficar mais bonita, atraente, para agradar as pessoas, para ser amada por elas. Depois Mila pergunta sobre um álbum de fotografias, e a mulher lhe mostra o marido e os filhos. "Ah", diz Mila, "as pessoas que você ama". A mulher confirma. E Mila arremata: "E eles não precisaram usar batom?"



O filme é dirigido e estrelado por Coline Serreau. Como se não bastasse, ela ainda fez a trilha sonora. Um filme delicioso de assistir.

A Belle Verte me fez lembrar com saudades minha querida Andréa, que me introduziu à Antropologia e às diferenças culturais. Déa gostaria de ter conhecido esse filme. Talvez você também goste de conhecê-lo. Tem uma versão, embora numa resolução não muito boa, no Youtube. Desejo boa sorte se tentar localizá-lo numa locadora, o filme não é nada comercial.

Ah, um aviso: cuidado pra não ser desconectado. Do Youtube? Da internet? Não. Da matrix? Talvez. Assista ao filme e você vai entender.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

livro: OFICINA DE ESCRITORES, Stephen Koch

Manuais são armadilhas. Atraentes, mas fatais. Atraentes porque prometem acesso rápido e fácil a algo que parece difícil. Fatais porque decepcionam: é preciso mais do que um manual para se fazer qualquer coisa. Quando se trata de alguma atividade criativa, então, a atração e o perigo são ainda maiores, afinal quem acreditaria num manual de escrita, por exemplo? Os estilos e as formas de expressão na arte são tão variados que para cada "faça isso" existe um igualmente verdadeiro "faça aquilo", embora isso e aquilo possam, com alguma frequência, ser opostos.

Pois bem, Oficina de Escritores, do Stephen Kock, consegue escapar da armadilha. E o faz apresentando pontos de vista conflitantes sobre cada tópico. Embora o autor defenda seu próprio ponto de vista, ele sempre deixa a porta aberta para "exceções" que podem ser o caso do leitor candidato a escritor.

O livro inicia assim:

"Só há um jeito de começar: é começar agora. Comece, se preferir, assim que terminar de ler este parágrafo, ou, em todo caso, antes de concluir a leitura deste livro."

Esse simples início serviu como uma espécie de abracadabra pra mim. Ao terminar de ler o primeiro capítulo, eu, que até então tinha escrito apenas histórias curtas, comecei a escrever uma história que hoje, terminada a leitura de Oficina de Escritores, já passou da página 40. O livro de Koch, sem dúvida, tem um papel importante nisso.

As informações que encontrei nele estão sendo valiosas para que eu me desenvolva como um escritor e tenho certeza de que, mantendo-o à cabeceira, terei como concluir uma novela, talvez até mesmo um romance.

Outra virtude do livro é que há muitas, mas muitas mesmo, citações de escritores sobre o ato de escrever. Essas citações foram recolhidas em entrevistas e biografias desses autores e dão um toque todo especial ao livro, fazendo com que a gente se sinta mais próximo do mundo da literatura, como se já fizéssemos parte do clube de escritores que divide com a gente suas dicas.

Quantas vezes alguém pode dizer, nessa vida, que aprendeu com prazer? Poucas, bem poucas. Para mim, a leitura deste livro foi uma delas.