sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

livro: A HISTÓRIA SEM FIM, Michael Ende

De vez em quando, um livro nos salva. A HISTÓRIA SEM FIM já me salvou duas vezes.

A primeira quando eu estava fazendo uma pesquisa para a prefeitura de Teresina sobre a metodologia de um programa federal, o Projovem. Depois de coletar todas as informações, eu não sabia que forma dar ao relatório, então, lendo esse livro, encontrei várias trechos que forneciam uma espécie de roteiro para a exposição. O resultado foi um relatório de pesquisa com um certo toque literário que me agradou muito.

Recentemente, precisando tomar uma decisão importante, recebi de volta de um primo o livro que eu lhe havia emprestado, e resolvi ler novamente A HISTÓRIA SEM FIM. Indeciso, pesando prós e contras de minha decisão pessoal, fui avançando na leitura até perceber que a jornada do personagem principal, Bastian Baltazar Bux, um menino escondido com um livro que se torna o salvador do mundo de Fantasia, tinha muito a ver com o meu processo de decisão. Quando terminei o livro, a decisão estava tomada, sem esforço, sem racionalismos, apenas com o coração.

Michael Ende conseguiu escrever uma proto-história, a história das histórias, um livro dentro do livro, um relato que explica e orienta sobre o próprio processo criativo, embora a gente não perceba imediatamente isso, já que está tão envolvido na aventura. Um livro que, pelo lido, ainda vai me salvar algumas vezes.

P.S. -- Foi feita uma versão para o cinema, que eu vi depois de reler o filme e de que não gostei muito.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

filme: BARFLY, Barbet Schroeder


Demorei a gostar dos escritos de Charles Bukwoski. Quando li o “Cartas na rua”, confesso que não me animei. Acontece que este, naquela época, para o meu gosto, não era dos melhores livros, tampouco eu era uma leitora que não estranhava o novo, ao invés de saboreá-lo. Mas isso mudou... Eu me aperfeiçoei como leitora e os poemas de Bukowski, assim como sua ácida prosa, me pegaram de jeito.

Assisti Barfly há tantos anos que nem sei quando. Acho que o filme chegou às locadoras porque alguns pensaram que seria mais um “9 semanas e ½ de amor” (Nine ½ Weeks/1986 – Adrian Lyne), já que Mickey Rourke era ator principal em ambos. E digo isso porque encontrá-lo é uma batalha. Ele sumiu das prateleiras, virou item de colecionador.

Eu gostava do Mikey Rourke por conta de filmes como “O selvagem da motocicleta” (Rumble Fish/1983 – Francis Ford Coppola) e “Coração Satânico” (Angel Heart/1987 – Alan Parker), este lançado no mesmo ano de Barfly, que decidi assistir porque vi que o roteiro era de Charles Bukowski. Meu gostar do autor foi homeopático, como que aprecia um bom vinho, não deseja que uma canção chegue ao fim, que a noite termine.

“Barfly” que ganhou subtítulo no Brasil, “Condenados pelo vício”, é uma semi autobiografia de Charles Bukowski, e acredito que outro ator não contaria essa história com tanta propriedade quanto Mickey Rourke. O grau de comprometimento do personagem Henry Chinasky com seu próprio vício, o fato de um bar ser praticamente a casa dele, o amor psicodélico e ébrio por Wanda, e a forma como lida com o próprio talento de poeta nato, fazem deste personagem a pessoa que encontramos nas obras de Charles Bukowski.

O roteiro de “Barfly” foi encomendado a Charles Bukowski pelo diretor do filme, Barbet Schroeder. Wanda Wilcox (Faye Dunaway) interpreta a mulher por quem Henry Chinasky (Mickey Rourke) se apaixona. Adoro Faye nesse papel...



O filme também é classificado como comédia, mas eu não consigo vê-lo dessa forma: uma simples comédia com toques de drama. Para mim, “Barfly” é uma daquelas obras de arte que tentam e quase conseguem traduzir a arquitetura da nossa humanidade. E são justamente suas imperfeições que mais gritam e embelezam a obra.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

filme: SETE VIDAS, Gabriele Murccino


O Ben Thomas de Will Smith, personagem central desse filme conduzido pelo número 7, considerado mágico e poderoso, chega a me deixar com aquela dorzinha no coração. A tristeza que ele interpreta é tão densa, tão angustiante que o expectador, sem perceber, passa a respirar tão pesado quanto o personagem, sentindo-se também acuado pela dor dele.

Particularmente, acho Sete Vidas (Seven Pounds/2008) um daqueles filmes que nos doem, mas que sempre acabamos assistindo novamente. Ainda outro dia, assistindo um episódio de um seriado médico, vi o excelente Mandi Patinkin fazendo belamente exatamente o que Will Smith faz em Sete Vidas. Se no seriado foi difícil de aceitar, apesar de estar claro que o personagem tinha de fazer o que escolheu, no filme a estranheza é ainda mais pulsante. O personagem de Patinkin diz à filha, mediante a recusa dela em aceitar sua escolha que “uma coisa é se suicidar e outra é escolher a morte”.

A eutanásia não é o tema de Sete Vidas. Na verdade, é a vida que acaba sendo celebrada, do começo ao fim. Triste é ver que a tristeza de Ben começa a se dissipar, justamente quando seu plano está para ser executado. E apesar de a sua escolha oferecer resultados positivos para as sete pessoas que ele escolheu, não há como descartar a inquietude provocada pela dor de Ben.

Gabriele Muccino, diretor de Sete Vidas, também dirigiu o belíssimo Em busca da felicidade (The Pursuit of Hapinness/2006), também estreado por Will Smith.

Não há como contar muito sobre o filme, pois ele é dos para ser descoberto a cada cena. Melhor assisti-lo... Eu certamente o farei mais vezes.

sábado, 28 de novembro de 2009

disco: PEQUENO CIDADÃO, Arnaldo Antunes, Antonio Pinto, Edgard Scandurra, Taciana Barros

Deve ser efeito da Júlia, desde março na barriga da mãe e na terça-feira (24.11.09) vinda ao mundo; deve ser o Bruno, há 6 anos parceiro de aventuras,

o fato é que encontrei esta pérola em forma de CD infantil, para marmanjos e marmanjas, para adultos, para todos nós...


é absolutamente arrebatador....é gostoso, sensível, irreverente, inteligente, ousado, emocionado, e muito mais...
pequeno cidadão é música psicodélica para crianças e é muito mais que isso!

Lançado em 2009 como projeto mais que especial de 4 grandes artistas e suas respectivas proles... filhos, poesias, canções tudo em sintonia, em harmonia, em pura infância...

Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra (que dispensam apresentações), Antonio Pinto (autor da magistral trilha sonora de Central do Brasil) e Taciana Barros (uma voz que merece muitas audições) fizeram um gol de placa!


São 14 canções, começando com
pequeno cidadão,e uma aposta na formação de gente decente, digna, educada, enfim...
o sol e a lua, é moderna, é eletrônica com letra e história de um romance impossível entre o quente e o frio, a noite e o dia, o sol e a lua, o primeiro amor, a descoberta do amor, a timidez;
meu anjinho é uma lindíssima e terna canção de ninar como poucas... é provavelmente a música mais bonita do cd... e tem um plural de xadrez, irresistível;
futezinho na escola, carrinho por trás tem o futebol como temática e são divertidas, ora com o som imemorial de um pátio escolar, ora com uma levada de samba que lembra bezerra da silva ou germano mathias;
o “X” é divertida, as vozes das crianças são bacanas, como vozes de crianças, afinadas ou não, com e sem protocolo, ensaiadas ou não;
sapo-boi deveria ser usada pelo ministério da saúde como combate mais inteligente da dengue;
leitinho, larga a lagartixa, o uirapuru, sobe desce, bonequinha do papai, mantem o altíssimo nível,

e o cd encerra com a comovente pererê, com o mestre ziraldo contando, cantando e ninando muitas gerações.

É desde já um CD para crianças, entendidos em crianças, curiosos, espirituosos, todos que nunca lar
garam ou largarão suas crianças por aí!

Ah, e quem quiser ouvir o CD basta clicar aqui.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

disco: ECO, Jorge Drexler

Minha teoria é a seguinte: a qualidade dos discos de intérpretes que também são compositores vai decaindo com o tempo. Isso porque, nos primeiros discos, há muito material do tempo em que o artista ainda não gravava. Chega um momento, lá pelo terceiro ou quarto disco, em que não há mais bom material antigo, e o disco tem que ser feito com canções produzidas recentemente. Como recentemente o artista tem dedicado mais tempo a shows e compromissos de divulgação de sua obra, o ofício de compor é deixado um pouco de lado: o artista agora já tem um público, talvez até já faça sucesso, mas já não tem mais músicas tão boas quanto as que lhe garantiram isso.

Bom, mas toda regra tem exceção. E eu encontrei uma exceção escandalosa no disco Eco, o sétimo da carreira de Jorge Drexler. Isso mesmo, o cantor e compositor uruguaio precisou de sete tentativas para fazer o disco perfeito, porque Eco é um daqueles raros discos em que não há nenhuma faixa ruim, todas as faixas são boas e ainda existem algumas obras-primas.

Como brasileiro, é difícil gostar das letras de músicas em outras línguas, afinal, entre nossos letristas, nós temos grandes poetas, capazes de fazer das letras de música verdadeiras obras literárias. E isso não acontece comumente mundo afora. Mas acontece com o Jorge Drexler, que ficou mundialmente conhecido por ter ganho o Oscar de melhor canção original com "Al Otro Lado del Río", que fez parte da trilha sonora do filme Diários de Motocicleta, sobre a vida de Che Guevara. A canção também está em Eco:

Yo muy serio voy remando muy adentro sonrío
Creo que he visto una luz al otro lado del río
Sobre todo creo que no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío
Oigo una voz que me llama casi un suspiro
Rema, rema, rema
Rema, rema, rema
(da música "Al otro lado del río")


Mais uns trechinhos de poemas-canções de Drexler:

Tu beso se hizo calor,
Luego el calor, movimiento,
Luego gota de sudor
Que se hizo vapor, luego viento
Que en un rincón de la rioja
Movió el aspa de un molino
Mientras se pisaba el vino
Que bebió tu boca roja.
(da música "Todo se transforma")


Vamos pedaleando
contra el tiempo,
soltando amarras.
Brindo por las veces
que perdimos
las mismas batallas.
Tengo tu sonrisa
en un rincón
de mi salvapantallas.
(da música "Salvapantallas")


Não bastassem as letras, as melodias e os arranjos também são maravilhosos, como você podem escutar nos tocadores aí em cima. O disco Eco pode ser ouvido, na íntegra, no site de Jorge Drexler, onde se podem encontrar também as letras e os demais discos.

Boa audição (e boa leitura, por que não?)!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

livro: POEMAS ESCOLHIDOS, Emily Dickinson

Fernando Pessoa não vale. É Deus. O melhor poeta em língua portuguesa que conheço é Cecília Meireles. Então não foi surpresa quando descobri o melhor da poesia em língua inglesa nas palavras de uma mulher: Emily Dickinson.

The Grass so little has to do —
A Sphere of simple Green —
With only Butterflies to brood
And Bees to entertain —

Neste pequeno livro de bolso que indico, uma edição bilíngue que traz uma pequena coletânea dos poemas de Emily Dickinson, Ivo Bender traduz essa estrofe de poema assim:

Bem pouco a fazer tem o pasto:
Reino de irrestrito verde,
Só tem borboletas para criar,
E abelhas para entreter —

Eu sou mais da turma do pé-da-letra e da métrica, e traduziria assim:

A Grama tem pouco a fazer —
Esfera Verde e simples —
Borboletas para cuidar
Abelhas a entreter —

Sempre considerei que o teste da poesia é a música. Assim como em sua origem — quando era cantada — poesia boa, verdadeira, tem que ser potencialmente musicável, mesmo que nunca seja realmente. Leio poesia com o ouvido interno atento à música e, de vez em quando, eu a escuto com clareza, feito quando li esse poema da página 79:

All the letters I can write
Are not fair as this —
Syllables of Velvet —
Sentences of Plush,
Depths of Ruby, undrained,
Hid, Lip, for Thee —
Play it were a Humming Bird —
And just sipped — me —


Na música, mudei levemente o assunto de "carta" pra "canção", e ficou assim:



Então é isso. Se dê ao prazer de entrar no universo delicado e estonteante da poesia de Emily Dickinson. Boa leitura!

sábado, 10 de outubro de 2009

disco: ZII E ZIE, Caetano Veloso

não é um disco fácil.

é um disco de caetano, ou melhor é o novo disco do caetano.
não é um disco solar a começar por sua capa...presume-se que seja o rio de janeiro, mas o rio de caetano é de sombra, penumbra e pouca luminosidade!


o rio está úmido e sombrio... no rio choveu muito em 2008, ano da feitura do disco.
presume-se que sejam rocks e sambas, mas são transambas e transrocks.
até o título é sui generis...zii e zie...expressões italianas lembram mais sampa que o rio, mas o cd está impregnado de rio de janeiro por todos os lados.



depois do invulgar, incomum, inusual e trangressoer Cê, a que tive o privilégio de assistir em Brasília (lançamento da turnê brasileira) e na sua passagem por Teresina, e claro assistir ao visível desapontamento de uma parte da platéia que quer sempre e por todo o sempre ouvir Leãozinho e Você é Linda, Caetano atacava de Rocks, Odeio Você, Amor Mais que Discreto, Não Me Arrependo de Você (dessas músicas de ódio que você só faz lembrando de alguém que você foi capaz de muito amar)...

mas isso é o Cê e Zii e Zie fez o Cê tornar-se passado.

agora no cd novo, com uma feitura de obra em progresso, em shows no rio ano passado, as novas músicas foram sendo apresentadas generosamente ao público, no melhor estilo men at work...


a banda está ainda mais afiada, a sonoridade não é a princípio acolhedora, as camadas de sons vão se decantando aos poucos, o canto de caetano é sempre ou quase sempre limpo e sempre bonito, e o encanto escondido e oculto como eclipse, surge e se estabelece em definitivo.

vamos às músicas...

bem...são treze canções, da politizada Base de Guantánamo, passando pela boba Tarado Ni Você (esta talvez a faixa mais fraca da obra)...

há a linda Sem Cais,

a pungente Perdeu (com a bandaCê inspiradíssima),

as alegres e coloridas
A Cor Amarela (música de verão de um CD de outono), e

Menina da Ria (lembram de menino do rio, mas agora trata-se da descrição de uma passagem lusitana do mano Caetano),

há o rio em Lapa (“Pobre e requintado e rico e requintado/ E refinado e ainda há conflito/ Pelourinho vezes Rio é Lapa/ Lapa/ Veio a salvação/ Lapa/ Falta o mundo ver/ Assim”) e

ainda mais versos interessantes de Diferentemente:
“Eu nunca imaginei que nesse mundo/ Alguma vez alguém soubesse quem é/ Mas se você me vê seus olhos são mais do que meus/ Pois amo/ E você ama/ E aí o indizível se divisa/ E a luz de tantos céus inunda a mente”,

há batidas inteligentes e desconcertantes (o arranjo de incompatibilidade de gênios) e

por fim o convite do Ota para que vocês conheçam o novo de um artista consagrado, que tem a sacra e profana ousadia de experimentar, de sair do cânone, de buscar novas luzes, novos caminhos, e ele como diz a mana Bethânia nem sempre acerta, nem sempre é bonito, mas é sempre bom ver alguém com coragem em tempos tão...