Um filme é feito de cenas. É assim que o roteirista o concebe. Quando se aprende a fazer roteiro, se é orientado a pensar cada cena como um pequeno filme, com começo, meio e fim, mas isso não é muito fácil de conseguir. Mesmo um bom filme nem sempre tem boas cenas. O conjunto se sobressai mais do que as partes. Há filmes que, mesmo não sendo muito bons, têm cenas memoráveis. E há aqueles filmes, maravilhosos, que são lindos em sua totalidade e ainda possuem cenas incríveis que poderiam funcionar como curtametragens.
No belíssimo filme "Apenas uma vez" ("Once", 2006), um tocador de rua e uma vendedora de flores se encontram e estabelecem uma amizade musical. Se existe qualquer romantismo no ar, é muito, mas muito platônico. São pessoas simples, com seus pequenos e médios problemas, que encontram na música uma forma de transcendência. Sozinhos, eles já fazem isso. Quando se encontram, seus momentos se transformam numa espécie de paraíso musical, como nesta cena, inesquecível, em que os dois tocam na hora do almoço em uma loja de instrumentos musicais. (Coloque o vídeo em tela cheia e abra seu coração para um momento simples e encantador.)
Filme "Apenas uma vez" - cena da loja musical ("Once" movie - Music Store Scene) from Eduardo Loureiro Jr. on Vimeo.
O que chama a atenção em "Apenas uma vez", que passa longe de ser uma superprodução, é a intimidade que ele cria com quem está assistindo. Somos fisgados não por uma forte emoção cheia de efeitos especiais, mas por uma emoção terna, familiar, que nos liga aos músicos, que nos faz sorrir quando eles sorriem e que nos deixa com uma enorme saudade quando o filme acaba. Um filme de adultos que nos deixa feito criança, querendo vê-lo de novo imediatamente, repeti-lo vez após vez, até decorá-lo, guardá-lo de cor, no coração.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
quarta-feira, 3 de março de 2010
livro: O ENCANTO DA LUA NOVA, Alonso Alvarez

Em “O encanto da lua nova”, Alonso Alvarez explora o imaginário adolescente sem condená-lo a um severo olhar adulto, mostrando que às vezes o melhor é mesmo se deixar levar pelo desconhecido e, no caminho, fantasiá-lo sem limites.
A história gira em torno de um grupo de amigos que mora em um edifício que não tem o 11º andar. A partir daí, cria-se um cenário onde a curiosidade, agradavelmente delineada pelo bom humor juvenil, torna-se fundamental ferramenta para a incursão deles no fantástico universo que habita esse lugar-nenhum.
Do apelido dos meninos à inclusão de diálogos do cachorro da turma, passando pelas picardias e paixões adolescentes, Alonso nos oferece uma prosa agradável, que nos leva a sorrir com frequência, desenferrujando a nossa capacidade de gracejar com a realidade. E o autor não lapida a linguagem, mantendo-a crua, coloquial e poderosa, o que nos aproxima dos personagens.
Há também a graciosidade com a qual Alonso coloca em sintonia toda aquela farra boa de quando somos adolescentes com a curiosidade que também leva ao conhecimento. “O encanto da lua nova” coloca em pauta trechos de obras de grandes escritores, às vezes mencionados pelos próprios adolescentes. Ele criou um ambiente no qual a literatura tem um importante papel, de onde pipocam emoções desconhecidas, reconhecimento e muito mais vontade de manter a imaginação movimento.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
filme: O HOMEM RESPOSTA, John Hindman
A comédia, para que eu a classifique como das minhas preferidas, tem de ser muito bem feita, ou seja, ter uma trama interessante, um roteiro bacana e com atuações e direção capazes. Obviamente, caímos no quesito ‘gosto’, onde o seu pode ser muito diferente do meu.É comum eu brigar com as caixinhas de DVD na locadora, sem entender bem por que uma está na prateleira de comédia se é, sem dúvida, um belo de um drama. A verdade é que todo drama tem seu quê tragicômico e toda comédia se curva a um bom chororô, ainda que seja quando algo pesado cai no pé do ator. Para mim, O homem resposta (Arlen Faber aka The Answer Man/2009) foi classificado como comédia romântica, apenas para elucidar a leveza com a qual o diretor e roteirista John Hindman conduziu a sofreguidão de cada personagem. Obviamente, o filme traz momentos muito divertidos, mas eles fazem parte de um todo onde esses personagens se debatem para voltar à superfície e recobrarem o fôlego.
Jeff Daniels interpreta – maravilhosamente - o escritor Arlen Faber que, ao questionar Deus, alega ter recebido respostas do próprio e as publica em um livro que se torna um best-seller. Muito conhecido, o ácido guru não quer ser o homem resposta, portanto se esconde e ao tentar se desfazer dos livros que tem em casa, conhece o dono de um sebo, Kris Lucas (Lou Taylor Pucci) que se nega a comprá-los, pois está quase falindo. Kris é um alcoólatra apaixonado pela ideia de estar cercado por livros e pela inspiração de tantas pessoas. Quando precisa de ajuda, vê em Faber, o guru, o homem resposta, sua única chance de compreender o que se passa com ele. Faber, por sua vez, quer apenas levar uma vida normal, e acaba se interessando pela mãe solteira Elizabeth (Lauren Graham), quem, aos poucos, coloca em xeque todas as proteções que o autor criou para ficar bem longe das pessoas.
Fiquei impressionada com a qualidade do roteiro, assim como o ritmo do filme. Como roteirista e diretor, Hidman conseguiu costurar belamente essa história. O filme é inteligente, sarcástico e tem perguntas e respostas dignas de best-sellers.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
livro: A HISTÓRIA SEM FIM, Michael Ende
De vez em quando, um livro nos salva. A HISTÓRIA SEM FIM já me salvou duas vezes.A primeira quando eu estava fazendo uma pesquisa para a prefeitura de Teresina sobre a metodologia de um programa federal, o Projovem. Depois de coletar todas as informações, eu não sabia que forma dar ao relatório, então, lendo esse livro, encontrei várias trechos que forneciam uma espécie de roteiro para a exposição. O resultado foi um relatório de pesquisa com um certo toque literário que me agradou muito.
Recentemente, precisando tomar uma decisão importante, recebi de volta de um primo o livro que eu lhe havia emprestado, e resolvi ler novamente A HISTÓRIA SEM FIM. Indeciso, pesando prós e contras de minha decisão pessoal, fui avançando na leitura até perceber que a jornada do personagem principal, Bastian Baltazar Bux, um menino escondido com um livro que se torna o salvador do mundo de Fantasia, tinha muito a ver com o meu processo de decisão. Quando terminei o livro, a decisão estava tomada, sem esforço, sem racionalismos, apenas com o coração.
Michael Ende conseguiu escrever uma proto-história, a história das histórias, um livro dentro do livro, um relato que explica e orienta sobre o próprio processo criativo, embora a gente não perceba imediatamente isso, já que está tão envolvido na aventura. Um livro que, pelo lido, ainda vai me salvar algumas vezes.
P.S. -- Foi feita uma versão para o cinema, que eu vi depois de reler o filme e de que não gostei muito.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
filme: BARFLY, Barbet Schroeder

Demorei a gostar dos escritos de Charles Bukwoski. Quando li o “Cartas na rua”, confesso que não me animei. Acontece que este, naquela época, para o meu gosto, não era dos melhores livros, tampouco eu era uma leitora que não estranhava o novo, ao invés de saboreá-lo. Mas isso mudou... Eu me aperfeiçoei como leitora e os poemas de Bukowski, assim como sua ácida prosa, me pegaram de jeito.
Assisti Barfly há tantos anos que nem sei quando. Acho que o filme chegou às locadoras porque alguns pensaram que seria mais um “9 semanas e ½ de amor” (Nine ½ Weeks/1986 – Adrian Lyne), já que Mickey Rourke era ator principal em ambos. E digo isso porque encontrá-lo é uma batalha. Ele sumiu das prateleiras, virou item de colecionador.Eu gostava do Mikey Rourke por conta de filmes como “O selvagem da motocicleta” (Rumble Fish/1983 – Francis Ford Coppola) e “Coração Satânico” (Angel Heart/1987 – Alan Parker), este lançado no mesmo ano de Barfly, que decidi assistir porque vi que o roteiro era de Charles Bukowski. Meu gostar do autor foi homeopático, como que aprecia um bom vinho, não deseja que uma canção chegue ao fim, que a noite termine.
“Barfly” que ganhou subtítulo no Brasil, “Condenados pelo vício”, é uma semi autobiografia de Charles Bukowski, e acredito que outro ator não contaria essa história com tanta propriedade quanto Mickey Rourke. O grau de comprometimento do personagem Henry Chinasky com seu próprio vício, o fato de um bar ser praticamente a casa dele, o amor psicodélico e ébrio por Wanda, e a forma como lida com o próprio talento de poeta nato, fazem deste personagem a pessoa que encontramos nas obras de Charles Bukowski.O roteiro de “Barfly” foi encomendado a Charles Bukowski pelo diretor do filme, Barbet Schroeder. Wanda Wilcox (Faye Dunaway) interpreta a mulher por quem Henry Chinasky (Mickey Rourke) se apaixona. Adoro Faye nesse papel...

O filme também é classificado como comédia, mas eu não consigo vê-lo dessa forma: uma simples comédia com toques de drama. Para mim, “Barfly” é uma daquelas obras de arte que tentam e quase conseguem traduzir a arquitetura da nossa humanidade. E são justamente suas imperfeições que mais gritam e embelezam a obra.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
filme: SETE VIDAS, Gabriele Murccino

O Ben Thomas de Will Smith, personagem central desse filme conduzido pelo número 7, considerado mágico e poderoso, chega a me deixar com aquela dorzinha no coração. A tristeza que ele interpreta é tão densa, tão angustiante que o expectador, sem perceber, passa a respirar tão pesado quanto o personagem, sentindo-se também acuado pela dor dele.
Particularmente, acho Sete Vidas (Seven Pounds/2008) um daqueles filmes que nos doem, mas que sempre acabamos assistindo novamente. Ainda outro dia, assistindo um episódio de um seriado médico, vi o excelente Mandi Patinkin fazendo belamente exatamente o que Will Smith faz em Sete Vidas. Se no seriado foi difícil de aceitar, apesar de estar claro que o personagem tinha de fazer o que escolheu, no filme a estranheza é ainda mais pulsante. O personagem de Patinkin diz à filha, mediante a recusa dela em aceitar sua escolha que “uma coisa é se suicidar e outra é escolher a morte”.
A eutanásia não é o tema de Sete Vidas. Na verdade, é a vida que acaba sendo celebrada, do começo ao fim. Triste é ver que a tristeza de Ben começa a se dissipar, justamente quando seu plano está para ser executado. E apesar de a sua escolha oferecer resultados positivos para as sete pessoas que ele escolheu, não há como descartar a inquietude provocada pela dor de Ben.
Gabriele Muccino, diretor de Sete Vidas, também dirigiu o belíssimo Em busca da felicidade (The Pursuit of Hapinness/2006), também estreado por Will Smith.
Não há como contar muito sobre o filme, pois ele é dos para ser descoberto a cada cena. Melhor assisti-lo... Eu certamente o farei mais vezes.
sábado, 28 de novembro de 2009
disco: PEQUENO CIDADÃO, Arnaldo Antunes, Antonio Pinto, Edgard Scandurra, Taciana Barros
Deve ser efeito da Júlia, desde março na barriga da mãe e na terça-feira (24.11.09) vinda ao mundo; deve ser o Bruno, há 6 anos parceiro de aventuras, o fato é que encontrei esta pérola em forma de CD infantil, para marmanjos e marmanjas, para adultos, para todos nós...
é absolutamente arrebatador....é gostoso, sensível, irreverente, inteligente, ousado, emocionado, e muito mais...
pequeno cidadão é música psicodélica para crianças e é muito mais que isso!
Lançado em 2009 como projeto mais que especial de 4 grandes artistas e suas respectivas proles... filhos, poesias, canções tudo em sintonia, em harmonia, em pura infância...
Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra (que dispensam apresentações), Antonio Pinto (autor da magistral trilha sonora de Central do Brasil) e Taciana Barros (uma voz que merece muitas audições) fizeram um gol de placa!São 14 canções, começando com
pequeno cidadão,e uma aposta na formação de gente decente, digna, educada, enfim...
o sol e a lua, é moderna, é eletrônica com letra e história de um romance impossível entre o quente e o frio, a noite e o dia, o sol e a lua, o primeiro amor, a descoberta do amor, a timidez;
meu anjinho é uma lindíssima e terna canção de ninar como poucas... é provavelmente a música mais bonita do cd... e tem um plural de xadrez, irresistível;
futezinho na escola, carrinho por trás tem o futebol como temática e são divertidas, ora com o som imemorial de um pátio escolar, ora com uma levada de samba que lembra bezerra da silva ou germano mathias;
o “X” é divertida, as vozes das crianças são bacanas, como vozes de crianças, afinadas ou não, com e sem protocolo, ensaiadas ou não;
sapo-boi deveria ser usada pelo ministério da saúde como combate mais inteligente da dengue;
leitinho, larga a lagartixa, o uirapuru, sobe desce, bonequinha do papai, mantem o altíssimo nível,
pequeno cidadão,e uma aposta na formação de gente decente, digna, educada, enfim...
o sol e a lua, é moderna, é eletrônica com letra e história de um romance impossível entre o quente e o frio, a noite e o dia, o sol e a lua, o primeiro amor, a descoberta do amor, a timidez;
meu anjinho é uma lindíssima e terna canção de ninar como poucas... é provavelmente a música mais bonita do cd... e tem um plural de xadrez, irresistível;
futezinho na escola, carrinho por trás tem o futebol como temática e são divertidas, ora com o som imemorial de um pátio escolar, ora com uma levada de samba que lembra bezerra da silva ou germano mathias;
o “X” é divertida, as vozes das crianças são bacanas, como vozes de crianças, afinadas ou não, com e sem protocolo, ensaiadas ou não;
sapo-boi deveria ser usada pelo ministério da saúde como combate mais inteligente da dengue;
leitinho, larga a lagartixa, o uirapuru, sobe desce, bonequinha do papai, mantem o altíssimo nível,
e o cd encerra com a comovente pererê, com o mestre ziraldo contando, cantando e ninando muitas gerações.
É desde já um CD para crianças, entendidos em crianças, curiosos, espirituosos, todos que nunca lar
garam ou largarão suas crianças por aí!Ah, e quem quiser ouvir o CD basta clicar aqui.
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Antonio Pinto,
Arnaldo Antunes,
Edgard Scandurra,
Taciana Barros
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